sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Lançamento Levoir: Sandman
Mestre dos Sonhos



A Levoir vai publicar em português a partir de6 de Outubro a grande e maravilhosa série Sandman. Por inteiro! Em capa dura!
Aqui o je ficou maravilhado... :)

Esta obra, assim como Watchmen, fez saltar a Nona Arte do rótulo "para crianças", para uma maturidade reconhecida. Quando começou a sair nos EUA, uma grande franja de leitores não consumidores normais de BD, sobretudo mulheres, reconheceu nesta obra um brilho acima da média, e fez dela um dos maiores best sellers da Banda Desenhada.
O principal personagem da obra é Morfeu, o Senhor dos Sonhos. Logo no princípio, no primeiro arco de história, Morfeu é capturado por engano num ritual em que o objectivo era capturar a sua irmã, Morte, por um Mago que queria viver para sempre.

Tomem atenção a esta apresentação por parte da Levoir:

Sandman

O primeiro volume Sandman, Mestre dos Sonhos de Neil Gaiman, Prelúdios e Nocturnos entrou na gráfica com 232 páginas. A partir de 6 de Outubro, a LEVOIR e o jornal Público vão lançar a Edição integral da série original do SANDMAN escrita por NEIL GAIMAN. São 11 volumes em edição de coleccionador, capa dura, dos quais 8 inéditos em português de Portugal, um volume por semana a 11,90€.

Considerada a melhor série de sempre do selo editorial americano VERTIGO.

Os livros são:
1.-Prelúdios e Nocturnos
2.-Casa de Bonecas
3.-Terra do Sonho
4.-Estação das Brumas
5.-Um Jogo do Ti
6.-Fábulas e Reflexões
7.-Vidas Breves
8.-A Estalagem no Fim do Mundo
9.-As Benevolentes 1
10.-As Benevolentes 2
11.-A Vigília

O que dizem de SANDMAN:

"Neil Gaiman is, simply put, a treasure house of story, and we are lucky to have him in any medium." - Stephen King

"The greatest epic in the history of comic books" - Los Angeles Times Magazine

"Clever, witty and beatufully rounded off."- Time Out



Boas leituras




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Capas: Amazing Spider-Man #20.



Adoro as capas do Simone Bianchi!
É um estilo de que eu gosto bastante, com muito pormenor, fazendo lembrar a BD Franco-Belga.

E como uma imagem é pouco, têm aqui mais três por baixo :)






Boas leituras




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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Lançamento Salvat: O Poderoso Thor - Em Busca dos Deuses
Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel Vol.26



Saiu esta semana o volume nº 26 da Colecção Oficial de Graphic Novels Marvel, desta feita com o poderoso Thor como protagonista principal. Mas temos como convidados extra-Asgard os Vingadores e Hércules.

Fiquem com a nota de imprensa da Salvat:

Volume 26
O Poderoso Thor
EM BUSCA DOS DEUSES

Argumento de DAN JURGENS e arte de JOHN ROMITA JR.

“Ele é o Deus do Trovão. Poder encarnado em forma humana. Armado com o seu poderoso martelo Mjolnir, Thor jurou usar o seu incrível poder para proteger a Terra. Mas quando os Deuses de três panteões diferentes unem esforços contra o Asgardiano, irá Thor encontrar forças para derrotá-los a todos?”

Em 1996, a Marvel decidiu efetuar uma grande aposta criativa, para revitalizar alguns dos seus mais antigos títulos. No seguimento do evento cataclísmico conhecido como Devastação (Onslaught), todos os títulos dos Vingadores, assim como o Quarteto Fantástico, foram cancelados e passados a novas equipas de criadores famosos. Encabeçados por talentos como Jim Lee e Rob Liefeld, as novas histórias recontavam as origens dessas personagens numa abordagem mais contemporânea. Ao fim de doze meses de publicações naquele estranho universo autocontido, as personagens foram finalmente devolvidas ao Universo Marvel regular, resumindo as suas aventuras.

Para Thor, a tarefa criativa para este segundo volume de histórias coube ao escritor Dan Jurgens e ao artista John Romita Jr. Tendo terminado na altura uma fase apreciada e controversa nalguns dos maiores títulos da DC, Jurgens deu início a esta nova série de forma espetacular.
Alternando entre as aventuras mais “cósmicas” e o mundo humano com o qual se encontrava mais envolvido do que nunca, Jurgens conseguiu conjugar ambos de forma perfeita com a sua linha narrativa. Aliás, a sua abordagem tornou-se tão popular, que permaneceria enquanto escritor da revista até o número 79, pouco antes de ser relançada uma vez mais, na sequência do evento Vingadores: Ato Final! já publicado nesta coleção.

Quanto à arte deste volume, temos um John Romita Jr. numa das suas melhores fases de sempre. Claramente inspirado pelo trabalho de Jack Kirby nas primeiras aventuras do deus Asgardiano, Romita criou aqui um estilo tão moderno, quanto clássico, aliado à sua noção de ritmo e de storytelling. As suas personagens, desenhadas com um “volume” forte e ao mesmo tempo dinâmico, ajudaram a definir um estilo das histórias do deus do trovão que perduraria durante muitos anos depois.

Ficha técnica
Volume 26: O PODEROSO THOR: EM BUSCA DOS DEUSES
Argumento de DAN JURGENS e arte de JOHN ROMITA JR.
Este volume reúne as edições 1 a 7 de Thor (Vol.2)
200 pgs.
ISBN: 978-84-471-2819-8
PVP: 11,99€





Boas leituras




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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Southern Bastards Vol.1 - Aqui Jaz um Homem



A G.Floy, neste momento para mim é sinónimo de qualidade editorial, publicou em português o primeiro volume da aclamada série de J. Aaron e J. Latour, "Southern Bastards".

Southern Bastards é colocado espacialmente no chamado Sul dos EUA, e torna-se difícil para um leitor não habitante daquela área conseguir captar toda a essência dessa zona geográfica, que tem toda uma cultura muito própria e que os autores transportam para as suas páginas.
Muito provavelmente vão-me falhar muitos pormenores espalhados pelas vinhetas deste livro, devido a essa dificuldade.

Existem partes desta cultura redneck que nós nos facilmente apercebemos, devido a muitos filmes feitos naquela área dos EUA, de resto temos de nos esforçar para criar empatia com aquele cultura sulista, como por exemplo o tema "família" tratado de um modo bastante forte. A família com os seus laços de amor/ódio sempre muito presente aqui neste livro.

As cores base do livro dão-nos conforto na leitura pois estão muito coerentes sobretudo nos planos exteriores, laranjas, castanhos alaranjados, cor de tijolo, magentas, e bastantes mudanças para o quadrante dos vermelhos. Isto faz com que o leitor se identifique bastante com o clima que impera, tanto paisagístico, como em cenas de acção.
Depois todo o desleixo paisagístico... cães vadios, lixo e desarrumação, as roupas muito descuidadas fazem-nos sentir mesmo aquele clima de cidade pequena do Sul.

Aaron faz-nos ao mesmo tempo um retrato de um homem severo e austero no protagonista, muito bem transposto para o papel por Latour, sendo que todas as personagens são pessoas simples, de baixo nível educacional.

Quanto à sequência narrativa, bem, não existem caixas de narração. Não existem explicações ou ajudas de ligação que o narrador exterior, ou presente na acção, dê. E o trabalho de Latour nesta situação é maravilhoso. Um traço agressivo mas que consegue transpor o desespero emocional pretendido por Aaron, assim como a brutalidade de muitas cenas.

Uma das sequências muito boas deste livro quase desde o início são as mensagens telefónicas que Earl faz para alguém que lhe querido, mas que não lhe atende o telefone. Isto repete-se ao longo do livro, e é onde o protagonista mostra mais emoção e sentimento, sempre cada vez mais forte conforme o livro se aproxima do final. Muito bem trabalhado pela dupla criativa.

Um livro que o Leituras de BD recomenda vivamente, um livro que é sinónimo de um excelente casamento entre argumentista e desenhador. Um redneck thriller que o autor chama de southern fried crime comic.





Boas leituras








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Lançamento Planeta: Star Wars - Rumo ao Despertar da Força
Vol.1: O Império Destruído




A Planeta vai publicar dentro de dias uma das novas sagas Star Wars já sob o novo comando da Marvel/Disney: O Império Destruído (Shattered Empire no original)

É uma mini-série em quatro partes que toma lugar temporalmente entre os filmes Star Wars Ep.VI: O Regresso do Jedi e o recente Star Wars Ep.VII: O Despertar da Força.
A intriga toma lugar no vazio de poder deixado pelo desaparecimento do Imperador Palpatine mas o Império não desapareceu. Ainda tem muitos seguidores e as suas forças movem-se na zona exterior do Império sendo tão ou mais perigosas que nunca, com os principais generais das forças fracturadas do antigo Império em jogos de poder pelo seu comando.



STAR WARS
RUMO AO DESPERTAR DA FORÇA
O Império Destruído (1.º vol.)
Greg Rucka e Marco Checchetto
James Robinson e Tony Harris

Um livro em capa dura que os amantes de BD não vão querer perder. Na primeira história, Greg Rucka (Pela Rainha, Stumptown, Veil) e Marco Checchetto (Punischer, o Vingador) levam-nos mais além da destruição da segunda Estrela da Morte… e inserem-nos no meio do caos de um império destruído.

Na segunda história, James Robinson e Tony Harris, a aclamada equipa criativa da obra-prima Starman, O Homem das Estrelas reúne-se para contar a origem do braço vermelho de C-3PO no Despertar da Força.
Podem dominar mais de seis milhões de formas de comunicação… mas este livro é obrigatório em todas as línguas!

Inclui o número especial: C-3PO The Phantom Limb

Informação técnica
144 páginas / PVP: 17,50€
Nas livrarias a partir de 21 de Setembro

Boas leituras
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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Lançamento Devir: Criminosos do sexo
Vol.1 - Um Truque Estranho



Saiu em Agosto o primeiro volume da excelente obra de Matt Fraction e Chip Zdarsky, Sex Criminals, em português Criminosos do Sexo.
Esta série séria da editora Image iniciou a sua publicação nos EUA em Setembro de 2013 no formato de série bi-mensal. Foi nomeada para dois prémios Eisner e recebeu críticas fortemente positivas pela crítica da especialidade.

Até agora estão publicado três livros da série (no original - EUA), sendo cada um composto por cinco revistas, ou seja, quase um por ano. Soube-se que Matt Fraction tinha chegado a acordo com a Universal TV no início de 2015 para uma adaptação da série para a televisão.

Em baixo o press release da Devir:


CRIMINOSOS DO SEXO
VOL. 1: UM TRUQUE ESTRANHO
MATT FRACTION E CHIP ZDARSKY

Suzie, uma bibliotecária conhece Jon, um ator. Depois de dormirem juntos descobrem que partilham a mesma habilidade que lhes permite parar o tempo quando atingem o orgasmo.

À medida que a sua relação evolui, decidem aproveitar este truque para assaltar bancos e salvar a biblioteca de Suzie.

Mas, nem tudo corre bem neste mundo ideal...

AUTORES

Matt Fraction ganhou o primeiro prémio literário para novelas gráficas atribuído pelo PEN Center USA. É autor de êxitos literários do New York Times tais como Hawkeye, Casanova e Satellite Sam.

Chip Zdarsky é o criador do popular personagem «Stan Lee». Nos últimos dez anos, sob o nome Steve Murray, tem trabalhado como escritor e ilustrador no jornal canadiano National Post, na coluna semanal intitulada Extremely Bad Advice (Muito Maus Conselhos). Nos comics, os seus trabalhos incluem Prison Funnies, Monster Cops e Vampirella.

IMAGE COMICS

Formada em 1992 por sete dos artistas mais vendidos da Marvel Comics, a Image é uma editora de comics e novelas gráficas. Atualmente, é a terceira maior editora de banda desenhada dos EUA, e responsável pela publicação de títulos como The Walking Dead e Criminosos do Sexo, ambas editadas em Portugal pela Devir.
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136 páginas a cores, capa mole
FORMATO: 170x260 mm
ISBN: 978-989-559-263-0
EAN: 9789895592630
PREÇO: €14,99 PVR
EDIÇÕES DEVIR



Peço desculpa pelo ausência de páginas da edição portuguesa, mas a editora não mandou mais nada, apenas a capa. As páginas são de edições norte-americanas.

Já agora devo dizer que editar neste momento em Portugal um livro no formato TPB (capa mole) por 15€... não sei se dará resultado. Apenas a minha opinião.

Boas leituras






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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Lançamento Phylaktera Comics: 2054 #1



Filipe Azeredo, um amante da ficção e do fantástico, resolveu iniciar a publicação de uma revista digital que recupera peças bem retro de terror espacial de há muitas décadas atrás.

Esta primeiro número da revista 2054 apresenta histórias com os nomes de Joe Kubert, Carmine Infantino ou Alex Toth.

A revista é publicada em língua inglesa, como tal o press release está da mesma forma:

The future...                               
2054
                                     ... as it once was

2054 is the first digital comic printed under the label Phylaktera Comics and it will bring to you the most amazing tales from a future as it once was imagined by artists like Kubert, Toth, Wolverton and many more. Hundreds of pages will be revived to give you the pleasure of an entertaining reading in a digital format that matches the experience of holding in your hands an hot off the press comic book from the 1950’s.


Pode ser comprada nos seguintes locais:

Kindle
Lulu
Blurb
Pulp Free (iOS App)
Drive Thru Comics
Sellfy






Boas leituras






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sábado, 17 de setembro de 2016

Animação: The War on Drugs is an Epic Fail




Molly Crabapple (arte) e Jay Z (narração) foram convidados pelo The New York Times para um trabalho sobre a guerra às drogas nos EUA. O trabalho que saiu foi apresentado ontem pelo jornal, apresentado-se como um projecto de fusão entre a animação e a ilustração.

Esta fusão já fora experimentada por Molly Crabapple numa série de cinco trabalhos (com a narração da própria autora) de 2015 sempre com o tópico da política social sobre temas fracturantes da sociedade norte-americana, como a emigração, violência policial, prostituição e justiça desigual. Apresento no final três desses vídeos, e mesmo que não se revejam nos temas abordados vale muito a pena ver o trabalho e o talento desta artista.

Este vídeo atravessa várias administrações do estado norte-americano, desde os tempos da guerra do Vietnam até aos tempos mais recentes. Fala da explosão demográfica prisional norte-americana (não se compara nem de perto nem de longe a mais nenhum país deste planeta), e sobretudo verifica e indica muitas das grandes causas deste aumento brutal de presos.
Visualmente maravilhoso e focado num assunto preocupante para os norte-americanos.

Molly Crabapple vive em Nova Iorque, e é escritora, jornalista, ilustradora, faz animação e comics.
Humanista, sempre intervindo com a sua arte em prol dos mais desfavorecidos pela sociedade, muito interventiva não só nos EUA como em outras partes do mundo. Colabora assiduamente com a revista VICE Magazine.


A sua intervenção não é apenas nas artes e quando o evento Occupy Wall Street esteve no seu auge colocou a sua casa à disposição de jornalistas e artistas que estavam a cobrir a situação. A sua casa ficava mesmo na praça do evento, e aproveitou para o registar graficamente in loco. Chegou a ser presa numa marcha de aniversário deste movimento.

Acaba por se celebrizar no jornalismo devido aos seus trabalhos de jornalismo ilustrado, como Guantanamo Bay, Discordia e Scenes from the Syrian War. O jornal alemão Der Spiegel referiu-se a sua aproximação ao jornalismo como única num novo tipo de jornalismo, o die politische Journalistenkünstlerin, ou seja "jornalista político-artista".

Aqui por baixo os três vídeos que prometi, e mais abaixo cinco ilustrações, sendo que a última foi encomendada pela CNN para figurar numa Galeria de Arte sobre o tema Power for a Digital Art. A ilustração chama-se Big Fish Eat Little Fish Eat Big Fish.














Big Fish Eat Little Fish Eat Big Fish


Podem ler o artigo original do The New York Times no link em baixo:

The New York Times - The War on Drugs Is an Epic Fail



Boas leituras





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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Como Viaja a Água



O que o envelhecimento tem de pior não é a doença.
O pior é a indiferença.
Um belo dia dás-te conta que a realidade venceu o jogo.
Um jogo que nem sabias que estavas a jogar.
E tu ficas impassível como uma árvore que o Outono abandona despida no meio do bosque.
Mas como as boas árvores, vivemos alheados desta ironia.

 - Por Aniceto in "Como Viaja a Água"

A editora Arte de Autor lançou este mês o seu 3º livro. Depois de "Caravaggio: O Pincel e a Espada" de Milo Manara (apresentado por mim no Museu Lisboa - Palácio Pimenta) e "Eu, Assassino" de António Altarriba e Keko, eis "Como Viaja a Água" de Juan Díaz Canales.
Só me resta já de início frisar o bom gosto que esta nova editora possui. As poucas obras publicadas reflectem-no.

Juan Díaz Caneles é conhecido mundialmente por ser o argumentista da série , com Juanjo Guarnido no desenho, é também argumentista de Fraternity com Munuera, Corto Maltese (nova série) com Pellejero e Les Patriciens com Gabor.

Ganhou prémios. Muitos prémios!

  • 2000: Prémio Melhor Primeiro Álbum Lys-lez-Lannoy (festival)
  • 2000: Prémio Especial em Rœulx (festival)
  • 2000: Prémio Némo em Maisons-Laffitte (festival)
  • 2000: Prémio Descoberta em Sierre International Comics Festival
  • 2001: Best Artwork Award no Festival de Chambéry
  • 2002: Best Artwork Award no Grand Prix Albert Uderzo
  • 2003: Prémio Especial do Júri no Sierre International Comics Festival
  • 2004: Angoulême Audience Award, para Arctic-Nation
  • 2004: Angoulême Best Artwork Award, para Arctic-Nation
  • 2004: Prémio Virgin para o Melhor Álbum, com Arctic-Nation
  • 2006: Angoulême Best Series Award, para a série Blacksad
  • 2006: Bédéis Causa - Prémio Maurice Petitdier para o Best Foreign Comic no Festival da BD Francophone de Québec com Blacksad
  • 2014: Premio Nacional del Cómic (Espanha)

Neste livro, Como Viaja a Água, Canales estreia-se como autor completo assumindo o argumento e o desenho.
Fazendo um pequeno aparte... tenho de notar que em três livros de três espanhóis publicados em português nos últimos três anos, existe um tema redundante trabalhado com mestria: a chamada 3ª idade. Tenho de concluir que os espanhóis se andam a preocupar com o problema do envelhecimento ou o ocaso da vida. Ainda por cima três excelentes livros: Rugas de Paco Roca, A Arte de Voar de António Altarriba e este Como Viaja a Água de Canales...

Como Viaja a Água  tem o seu quinhão social, a sua parte criminal e uma fatia enorme do que é o sentido da vida. Qual é o sentido da vida para uma pessoa, ou para um grupo de amigos que sobreviveram a uma guerra sangrenta na sua juventude, que viveram vidas cheias de acontecimentos?

Um grupo que guarda um segredo... e esse segredo é mesmo sobre o final da vida. São um grupo de ateus, comunistas e octogenários, não têm muito com que encher as suas vidas, então dedicam-se ao contrabando para lhes dar um pequeno rush nesta fase da vida e poderem com os dividendos da actividade ilícita jogar entre eles um pouco de póquer. Mas começam os crimes... o grupo cada vez é mais pequeno devido aos assassinatos!

Um retrato muito cru sobre uma época actual de crise social e bancária, contado pungentemente pela caneta e pelo pincel de Juan Díaz Canales.
Uma metáfora que é contada através da água, e de como se pode perder a razão e a vontade de viver por falta esperança no nosso legado apenas por pensar na vida num dia em que se estava a fazer a barba e olhar para o espelho.

O segredo deles já o conheço há bastante tempo (sou ateu), e o meu segredo está em aceitar todos os minutos de vida até ao final, até ao último minuto, e não pensar na "viagem da água", ou o que essa metáfora implica nesta maravilhosa histórias de Canales. Este último parágrafo já é divagação minha... já sou eu a pensar no sentido da vida ao chegar à minha velhice...

Penso que é um livro que se dá a bastantes interpretações, conforme a disposição para vida de cada leitor, ou das suas convicções sobre a vida (ou não) depois da morte. O tempo que demoramos a desaparecer, maior ou menor, depende daquilo que fizemos em vida. Vivemos pelo legado e pela memória. Podemos "viver"poucos anos depois da morte, ou podemos viver séculos. Depende da nossa "vida" como protagonistas activos e principais. A nossa "vida" pós-morte não é um grande "nada".

Por vezes um livro que se apresenta simples, de contornos sociais e criminais, pode apresentar-se bastante complexo. Foi o que me aconteceu. E nem sequer sei se estou a analisar bem todo o conceito apresentado pelo escritor. Estou a fazer a "minha leitura"

Comprem e façam a vossa leitura. O LBD recomenda este livro.

Tenho estado um pouco fora do circuito da BD, por decisão própria, e agora que tenho voltado aos poucos vejo que está tudo na mesma relativamente a críticas de BD... a única coisa que se vê são centenas de divulgações de livros ou revistas de BD a sair, ou críticas incapazes de dar uma opinião sincera. Eu estava a cair na mesma armadilha, quase não fazendo crítica ou artigos sobre BD, e essa foi apenas uma de algumas coisas que me fizeram "passar férias" do blogue, não da BD porque tenho continuado a ler e a comprar.

Irei fazer divulgação de livros a sair sim, mas não exaustivamente. Quero fazer aquilo que mais falta faz neste momento à BD: artigos e opiniões. Deixo a divulgação exaustiva a quem a já faz, não vou dar aos leitores do LBD "mais do mesmo" que já saiu num monte de blogues e sites.
:)




Boas leituras







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quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Hulk - Gritos Silenciosos
Colecção Oficial Graphic Novels Marvel (Salvat)


Quem me conhece sabe que eu não sou o maior fã do gigante esmeralda, embora tenha uma obra que está entre as minhas favoritas no universo dos super-heróis: Planeta Hulk

Este Gritos Silenciosos é o volume 25 da Colecção Oficial Graphic Novels Marvel, editada pela Salvat, e pertence a uma das melhores fases do Hulk, na minha opinião.

Foram 12 anos que Peter David esteve à frente dos argumentos do Hulk, redefenindo a personagem depois de Stan Lee (o Hulk monstro bruto) e de Roy Thomas e Bill Mantlo (Hulk infantil que só quer estar em paz, longe dos puny humans).

Essencialmente entre os vários desenhadores que o acompanharam nesta grande saga de 12 anos de Hulk, destacam-se Todd McFarlane, com quem iniciou esta sua run no Hulk, e que de facto o ajudou a definir de início a personagem, e três anos depois Dale Keown, o desenhador deste Gritos Silenciosos. De notar que esta dupla ganhou com o Hulk um Eisner Award na categoria "Best Writer/Artist or Writer/Artist Team" em 1992.

O canadiano Dale Keown substituiu Jeff Purves nesta run do Hulk, e os seus visuais casam perfeitamente com os argumentos de David. Um Hulk e um Banner bem caracterizados fisicamente, sem exageros dentro do próprio exagero que é o próprio Hulk. Conheci o desenho de Keown durante a sua run na minha personagem fetiche, The Darkness, onde já tinha admirado o dinamismo que este desenhador imprime nas suas páginas.

Passando para esta caracterização do Hulk feita por David... bem, temos um Hulk com uma densidade psicológica fora do habitual, e bem complexa. Tudo se passa na mente de Banner, e mais que a bomba Gama, na run de David o alter ego Hulk é criado por traumas de infância e abusos do pai, daí termos um psicólogo recorrente nesta fase: Dr Samson.

Outra coisa interessante nesta fase é a relação com Betty Brandt. O seu casamento é bastante bem estruturado na narrativa desta fase, ao contrário de alguns "casamentos" ocos que já aconteceram na História dos comics. Este casamento dá corpo a muitas ideias, muitas fracturas psicológicas, muita luta entre Banner e os seus Hulks!

Falando livro propriamente dito. É uma boa história sim, com alguns momentos WTF próprios dos anos 90, mas temos um início forte com três dos elementos do grupo Defensores juntos: Hulk, Namor e Dr Estranho. Banner continua a dividir as suas 24 horas com o inteligente Hulk Cinza: Banner de dia em busca de Betty, e o Hulk Cinza de noite.
Neste arco que prepara a saída a saída do Hulk Esmeralda (pronto... vá... o Hulk Verde), temos uma grande cena dentro da psique de Banner devido à possessão de um monstro de outra dimensão. Esta cena é muito bem trabalhada pela dupla criativa, assim como mais tarde o desespero de Banner pensando que teria perdido Betty novamente, e logo de seguida reencontrando-o no meio desse mesmo desespero.

A dinâmica de casal entre Betty e Banner/Hulk Cinza também é extremamente bem conseguida. É uma excelente sequência da história feita de pormenores, alguns deliciosos, muito bem encadeados. E claro o momento alto da luta passada na mente de Bruce Banner, entre este e os dois Hulks. Este arco também está muito bom. A fusão dos Hulks e Banner após perceberem que acabam por fazer parte de uma mente fracturada devido aos abusos de Bruce enquanto criança pelo pai, é o exemplo de que quando o argumento e o desenho se interligam perfeitamente temos grande momentos de BD.

Cenas WTF... bem, aquela cena toda de Skrulls e Rick Jones... LOL! E já agora, graficamente aqueles braços, mãos e garras a saírem do traseiro do Bruce... :D

Um bom livro do Hulk.
Aqui por baixo as páginas de divulgação da Salvat. São as primeiras 4 do livro.





Volume 25: O INCRÍVEL HULK: GRITOS SILENCIOSOS
Argumento de PETER DAVID e arte de DALE KEOWN
Este volume reúne as edições 370 a 377 de The Incredible Hulk (vol. 1).
200 pgs.
ISBN: 978-84-471-2818-1
PVP: 11,99€

Boas leituras





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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Séries TV: Dark Matter



Esta série está em exibição (2ª temporada) no canal Syfy aqui em Portugal.
Foi criada por Joseph Mallozzi e Paul Mullie, dois excelentes criadores de argumentos para ficção-científica (Stargate SG-1, Stargate Atlantis e Stargate Universe). Primeiramente tinham pensado Dark Matter para uma série televisiva, o que não aconteceu, e então criaram uma mini-série de comics pela Dark Horse em 2012 com esta ideia. O desenhador foi Garry Brown, e a série teve sucesso dentro do público a que se destinava, saindo mensalmente em quatro números.

Mais tarde, em 2014, a série aconteceu mesmo, baseada na BD de 2012. Foi desenvolvida pela Prodigy Pictures associada com o Space Channel e o canal Syfy.
A 1ª temporada iniciou a sua exibição televisiva em Junho de 2015, durando 13 episódios, e penso que acabou por ter sucesso visto que foi contratada uma 2ª temporada iniciada em Julho deste ano, que ainda está a decorrer faltando apenas o último episódio (dia 16 deste mês). De qualquer modo, uma 3ª temporada foi contratada este mês, com início previsto para 2017.


Agora como eu conheci esta série? Bom, o ano passado vi uns trailers e o conceito pareceu-me interessante! Gravei os primeiros cinco episódios mas aquilo maçou-me um pouco... não desenvolvia muito. Fiquei com o 5º episódio por ver.
Este ano andava à procura de uma série para me entreter, e dei com os tais cinco episódios. Resolvi ver o episódio em que tinha desistido da série, e bolas... aquilo "desemburrou" brutalmente! A diferença que um episódio pode fazer... lol

Gravei o resto da 1ª temporada e fiz uma autêntica maratona de Dark Matter até ao final da temporada. E que final! Adorei aquele cliffhanger brutal, e felizmente tinha ali à disposição para gravar os primeiros 7 episódios da 2ª temporada. Foi mais uma maratona! :D


Falando do conceito da série e tentando não fazer spoilers.
Uma nave espacial espectacular, a Raza, com seis habitantes em câmaras de êxtase. Este é o início.
À medida que vão acordando verificam que não têm memória, então renomeiam-se com números de 1 a 6 pela ordem em que acordaram. Um pouco mais tarde junta-se a esta tripulação o Androide de serviço à nave que estava desactivado (é difícil não fazer spoilers...).

O início é um pouco confuso, devido à perda de memória e à entrada de personagens que se vão tornando recorrentes ao longo da série, mas que ainda não sabemos qual o jogo que irão jogar.
Aos poucos vai-se sabendo partes daquilo que eles eram, ou por terceiros, ou por gravações. E descobrem que não gostam muito muito daquilo que faziam.


O desenvolvimento da série em torno desta falta de memória, do descobrir pequenos pormenores deles em situações de grande tensão, e acção, está muito bem feito nesta série. O foco afinal é mesmo a sobrevivência. Cada aventura/episódio traz sempre algo de novo, aos pouco, mas sempre subindo a tensão, ora entre os elementos da tripulação, ora a tripulação versus  Autoridade Galáctica, Reinos Espaciais, mercenários, ou as empresas de Exploração Espacial. O universo contra a Raza!

Os actores principais são:

Um - Marc Bendavid (1ª temporada)
Dois - Melissa O'Neil
Três - Anthony Lemke
Quatro - Alex Mallari Jr.
Cinco - Jodelle Ferland
Seis - Roger Cross
Androide - Zoie Palmer
Devon Taltherd - Shaun Sipos (2ª temporada)
Nix - Melanie Liburd (2ª temporada)



Aconselho vivamente a quem gosta de Sci-Fi misturada com muita aventura e suspense. Está perfeita para mim neste moldes! Sempre com muitas voltas, cliffhangers e surpresas. E sim, é raro uma série surpreender-me nos com alguma coisa nos dias que correm, visto eu já ter visto e lido tanta série deste género...

Boas leituras




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terça-feira, 30 de agosto de 2016

Lançamento Kingpin Books: Rendez-Vous em Phoenix



A Kinpin publica mais um livro do mexicano Tony Sandoval
Depois de "As Serpentes de Água" e "Mil Tormentas" a Kingpin torna a apostar neste excelente autor, com o seu novo livro: Rendez-Vous em Phoenix

Como é referido na nota de imprensa, esta é uma obra autobiográfica sobre os tão actuais problemas da imigração. O autor é um excelente contador de histórias, possuindo um traço muito próprio e inimitável.

Por baixo da nota de imprensa têm um "retrato" bastante pormenorizado deste autor, escrito por Mário Freitas aquando da publicação de "Mil Tormentas" por esta editora portuguesa.



RENDEZ-VOUS EM PHOENIX
de Tony Sandoval

Nascido no noroeste do México, TONY SANDOVAL narra-nos a sua travessia clandestina da fronteira para os Estados Unidos. «RENDEZ-VOUS EM PHOENIX» é o relato autobiográfico de um jovem ingénuo e idealista em busca do sonho americano. Entre desventuras e encontros fortuitos, o autor apercebe-se da angústia e do medo daqueles que deixam o México em busca de um Eldorado.

Uma visão sentida e muito pessoal das agruras por que passam os migrantes ilegais, num registo bem diferente do universo fantástico do criador de «As Serpentes de Água» e «Mil Tormentas».

Capa dura, cores, 80 páginas
Dimensões: 19,5 x 27,5cm
ISBN: 978-989-8673-25-1


Retrato de Tony Sandoval por Mário Freitas
 (retirado de um post antigo sobre o autor)

Nascido há 42 anos na pequena cidade de Obregón, cedo o autor percebeu ser dotado de uma criatividade invulgar que o arrastava para construções narrativas bizarras que pululavam na sua cabeça. Parte para a Europa em meados da década passada e, influenciado pelas lendas e culto dos mortos tão comuns no seu país, por óbvios pastiches lovecraftianos e pelos acordes pesados da música que o inspira, inicia em Barcelona a sua colaboração com editoras espanholas, lançando as primeiras edições de El Cadáver y El Sofá e Nocturno, onde a sua obsessão pela morte e pela libertação do espírito criativo se tornam desde logo marcantes.

Em Paris, conhece o suiço Pierre Paquet, seu editor desde então, que dá a conhecer as obras de Sandoval ao público franco-belga. Em 2010, juntos colaboram em Un Regard Par-dessu L'Épaule, escrito por Paquet, num dos raros casos em que o autor mexicano ilustra uma história de outrem. Já com a reputação cimentada, é em 2012 que desponta para o estrelato com a nomeação de Doom Boy (Paquet, 2011) para o Grande Prémio de Angoulême, ano que marca também a sua primeira visita a Portugal, por ocasião da 3ª edição do Festival AniComics Lisboa, em Maio. Doom Boy sedimenta a maturidade artística atingida com Les Bêtises de Xenoxiphérox (Paquet, 2011), reforçando a simbiose entre o traço fino e solto a caneta e as cores suaves aguareladas que lhe dão corpo. Uma arte invulgar, única, feita de corpos esguios, fluídos como um líquido e dotados de enormes cabeças ovais e expressivas; um estilo singular, peculiar, dificilmente colável a influências evidentes e verdadeiro sinónimo de um artista ímpar. A história de ID, um jovem guitarrista mediano que se vê subitamente tocado por um talento divino, não parece diferir em muito da Marta de Les Bêtises... que faz um pacto com uma bruxa em troca de aptidões literárias. Porém, no que a decisão de Marta acaba por libertar o inevitável mal extra-dimensional das histórias de Sandoval (por muito que, neste caso, a personificação do mal seja uma criatura ridícula semelhante a uma pequena baleia voadora) com consequências devastadoras para a própria e para os que a rodeiam, a estrela que se acende em ID despoleta aquele que é, talvez e paradoxalmente, o menos apocalíptico dos livros do mexicano. A partir da premissa clássica da morte como catalisador, Doom Boy reflecte a "explosão" de ID como catarse do desaparecimento prematuro da sua amiga Anny, transformando-o numa lenda urbana do Doom Metal (a tal inspiração musical predominante do trabalho de Sandoval), um génio incógnito cujas gravações seminais se propagam e mitificam de ouvido em ouvido. O talento como alma eterna.


Em 2014, As Serpentes de Água marca a estreia da edição em português do autor (então a viver em Berlim) e o seu regresso a Portugal, por ocasião do lançamento do livro no Festival Internacional de BD de Beja. Mais do que qualquer outra das suas obras, As Serpentes de Água sintetiza as temáticas recorrentes das obras de Sandoval. O Rei belo de uma das facções do domínio da imaginação é aprisionado pelos seus opositores e transformado num polvo negro que esperará uma eternidade pela salvação; pela recuperação da verdadeira forma; pelo reacender da centelha da criatividade. Presentes em boa parte dos livros de Sandoval e símbolo comercial da colecção Calamari que o próprio dirige na Paquet, os cefalópedes assumem-se aqui, em definitivo, como Reis no gatilho criativo do mexicano. As Serpentes de Água é um clássico “coming of age”, um livro sobre o amadurecimento e libertação sexual, um grito libertador contra as grilhetas que o mundano e as pessoas comuns impõem aos espíritos livres. Mila é uma menina especial capaz de ver Agnès, aparentemente morta há 11 anos, mas que estará afinal prisioneira na dimensão alternativa da imaginação em que tanto da narrativa clássica de Sandoval se desenrola. Esta dimensão onírica, lar de anjos e demónios e palco de guerras milenares entre o Céu e a Terra, mais não é que o espaço privilegiado de cada personagem no seu combate pela individualidade, pela fuga à banalidade que tanto da realidade e dos seus protagonistas encerram.

Em Mil Tormentas (Kingpin Books, 2015, em estreia mundial simultânea com as editoras espanhola, italiana, suíça e polaca), o autor reforça a unicidade do seu universo autoral, cruzando subtilmente referências dos seus últimos livros e praticamente revelando que o domínio da imaginação (onde residem o “céu” e o “inferno”, consoante as crenças de cada um) é um, e um só, em todas as suas histórias. À semelhança de Mila, Lisa é uma adolescente solitária com uma obsessão coleccionista que desperta a desconfiança e a crueldade das outras crianças, e uma curiosidade inerente que a mergulhará na tal dimensão alternativa, onde sonho e realidade, vida e morte, se misturam e confundem. O equilíbrio é precário, e entre roubos compulsivos e oferendas de paz, a conclusão das narrativas de Sandoval aponta muitas vezes para o apaziguar dos demónios internos, mais até do que dos ficcionados. Não será por acaso que os protagonistas das suas histórias são, em regra, adolescentes e jovens adultos diferentes ou solitários que se debatem com as angústias e dúvidas existenciais típicas da idade. A excepção a esta regra surge em Les Échos Invisibles - editado em 2 volumes e em que a história e layouts de Tony Sandoval são servidos pela belíssima arte da italiana Grazia LaPadula – onde o protagonista, Baltus, é um fotógrafo de cerca de 40 anos, cuja vida desaba após a morte prematura da sua mulher. Mais uma vez, a morte servirá de catalisador para a descoberta de um dom, que colocará o protagonista em rota de colisão com as expectativas e perspectivas comuns sobre a vida, sobre a morte e sobre potenciais renascimentos, reais ou criativos.

Em termos artísticos, o recente Mil Tormentas é menos denso que o seu antecessor, predominando a caneta e suaves cores pastel, pontuadas apenas, aqui e ali, pelas aguarelas clássicas de Sandoval. Esta flexibilidade visual das suas obras contribui para o reforço de uma sensação de desconforto, de incerteza, quer para as suas personagens, quer para o próprio leitor, bastas vezes prisioneiros numa fina, quase imperceptível, membrana entre o sonho e a realidade. Aliás, procurar uma lógica narrativa nas histórias de Sandoval torna-se um exercício inútil. A sua abordagem insere-se antes em fogachos de sensações, em pinceladas de intenções, com uma leitura e coerência interna muito próprias que caberá ao leitor decifrar. Sandoval não é David Lynch, mas partilha com o cineasta a intercepção rotineira entre a realidade e o sonho, entre o presente narrativo e saltos temporais nem sempre perceptíveis numa primeira leitura. Mas no que Lynch é intenção, é ciência calculada, Sandoval é instinto, é pureza narrativa.

Tony Sandoval respira arte. Diria que também a transpira por todos os poros. Compartilhar com ele uma qualquer mesa de café ou restaurante é vê-lo, inevitavelmente, a rabiscar algo de belo no seu inseparável bloco de notas ou até numa toalha de mesa de papel. Se a sua infindável criatividade é o alicerce da sua arte, as pinceladas a aguarela, a café, ou até a cerveja, são a palete que dá cor a cada momento da sua existência terrena. Porque Tony sabe que um dia o seu corpo partirá, mas a sua alma e o seu talento permanecerão ad aeternum na tal dimensão conturbada da imaginação, prontos a dar mão a criadores hesitantes, que anseiem ou desesperem, até, por uma qualquer inspiração divina.

Texto: Mário Freitas




Boas leituras





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